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O poeta da humildade e da resignação

Escrito por J. R. Guedes de Oliveira.

 

Rodrigues de AbreuNascido em Capivari, SP, em 1897, só por volta de 1923 o poeta Rodrigues de Abreu adotou Bauru como sua cidade e aqui fez a sua literatura efervescer.

Considerado pela crítica como uma das mais perfeitas celebridades de sua época, na área poética, desafia o tempo com a sua literatura universal. Capaz de comover os mais áridos espíritos, Rodrigues de Abreu permanece vivo, forte e presente em nossos dias, como um metal precioso ou um diamante dos mais caros e preciosos pela sua perfeição.

Há quem diga que Rodrigues de Abreu perambula pelas ruas de Bauru, espargindo a sua poesia, o seu encanto, a sua beleza de verbo, o seu encanto de artista e homem consagrado, desses que leva no peito a formosura dos versos e na fronte a sabedoria beneditina.

Há, pois, de situar Rodrigues de Abreu como um dos grandes, entre as cintilantes estrelas de quinta grandeza. E foi autêntico e fiel aos seus princípios e, com a sua nobreza, conquistou Bauru e cantou esta cidade que ele dizia ser de espantos.

Rememorar o poeta, avivando a sua memória, talvez seja a paga que lhe ofertamos pelo muito que ele produziu em bondade e literatura. Serve, a nós todos, como alento e como um exemplo edificante de pessoa, de bravura, de luta e de sinceridade. Poderia ter produzido muito mais, se a doença não lhe tivesse interrompido o seu caminhar, como bem disse Manuel Bandeira que, também, na mocidade, fora tuberculoso.

Depoimento do amigo

Reportamo-nos a um trecho da palestra feita pelo dr. João Maringoni, nos salões do Automóvel Clube de Bauru, no dia 2 de setembro de 1946, falando sobre a figura de Rodrigues de Abreu. Dizia ele, naquela noite,

“que Rodrigues de Abreu falava com uma correção e desenvoltura sem par, e tinha uma palavra colorida de todas as nuânces, que seduzia e arrebatava. Na oratória era tão grande como na poesia.

Lembro-me de uma festa, que os amigos lhe fizeram, já nos últimos tempos de sua vida, para mantê-lo em São José dos Campos. Foi no Centro Bauruense, onde hoje está o Grêmio. Fizemos música. Moças recitaram e cantaram; Jorge de Castro, o jornalista insigne, que lhe seguiu na rota do sofrimento e da morte, organizou um número de jornal falado do “Diário da Noroeste”, que os vitoriosos da Revolução de 1930 destruiram e queimaram, como se fora possível queimar e destruir o pensamento e a luz.

No número falado do jornal, eu fiz o artigo de fundo, por deferência especial dos que me fizeram diretor daquele órgão; Breno Pinheiro, jornalista vigoroso, desses que escrevem com sentimento e ardor, deu-nos uma de suas produções rica de imaginação e graça; Rafael de Holanda, outro amigo ardoroso de brasilidade, fez uma doutrinação patriótica; Jorge de Castro, com sua pena de pluma e seu verbo de fato, uma crônica de modas, num estilo brilhante e macio; e todos fizeram a sua parte, naquele número de novidade, que surpreendeu pela forma e encanto pelo fundo. Rodrigues de Abreu pediu-nos, na hora, uma coluna e ele disse, na seção livre do jornal falado, o seu agradecimento.

Só quem esteve naquela noite no Centro poderá dizer o que foi o agradecimento do orador assim homenageado. Uma coisa inenarrável, um hino de louvor à terra que o acolhera, e aos amigos que o amparavam. Era tal o brilho e o transporte com que falava, que todos vibravam com ele, fremiam com ele, choravam com ele, com ele formando uma só cadeia de crença e de fé, uma só vida, uma só alma! Eletrizou, por fim, a assistência, que se quedou num silêncio de sepulcro, e a sala se esvaziou numa triste mudez de orfandade e de luto... Foi essa uma das últimas produções, porque pouco tempo depois, rodeado de amigos dedicados, como Alípio dos Santos e Jorge de Castro, e tendo à cabeceira, a lhe iluminarem a partida, dois círios humanos – Anésia de Abreu Cara e Hilda de Barros Monteiro – Rodrigues de Abreu, a 24 de novembro de 1927, voava para as regiões etéreas e ia, longe da terra e dos homens, na mansão sagrada dos justos, buscar a felicidade do seu eterno descanso.

Automóvel Clube de BauruRodrigues de Abreu, operário agrícola nos sítios e fazendas de Capivari e Piracicaba, mestre-escola e escrevente de cartório, poeta e orador, foi um raio de luz que passou pela terra”.

Esta é, pois, o depoimento do dr. João Maringoni, uma das mais brilhantes e históricas personalidades de Bauru que, com Rodrigues de Abreu e tantas figuras célebres da cidade, plantaram a semente da Noroeste.

Podemos começar a relatar a vida de Rodrigues de Abreu num lance de página de jornal, justamente no dia do seu nascimento: 27 de setembro.

Bauru querida

Havia um homem que, tentando inutilmente curar-se de sua doença profunda, atroz, resolveu morar, por algum tempo, em Atibaia. O ar da estância seria benéfico aos seus pulmões e poderia reanimá-lo para a vida.

Triste sorte, porém, desse homem que, mal chegando à cidade, uma forte crise o deixaria horas em poder articular uma palavra que fosse. E com a chegada de seus familiares distantes, sua boca angustiada conseguiu implorar:

– Bauru! Bauru! Bauru!

E este homem, levado de volta a sua terra adotiva, via férrea, aproximando-se de Bauru e ao avistá-la pos-se a chorar de alegria, como uma criança que volta ao seu lar.

Este homem de que falamos, não é senão o nosso querido e saudoso poeta Rodrigues de Abreu que fez de sua poesia, de sua “via crucis” um hino de amor e de louvor à vida e à virtude, através também da sua literatura.

Tinha ele uma paixão por Bauru, pela sua gente, pelas suas ruas e pelas suas coisas. A Cidade dos Espantos, como ele definia em versos, crescia em ritmo de um novo Eldorado. Eram as ferrovias que traçavam o Brasil e Bauru, como ponto de encontro de três delas, representava o ponto fulgurante desse desenvolvimento acelerado.

Importava o progresso numa região distante, de calor imenso, de terras ainda para serem desbravadas e de figuras de donos-de-fazendas e pastagens.

Carlos Lopes de MattosFoi com este pensamento que o dr. Carlos Lopes de Mattos pronunciou, em 1954, uma ardorosa conferência a respeito do poeta, descortinando, a todos os bauruenses dados biográficos até então desconhecidos sobre o criador da “Casa Destelhada” e aspectos de sua vida de lutas em Capivari, por volta de 1918 a 1922, amparado que fora por figuras admiradoras, entre as quais citamos Amadeu Amaral, Rosário Capóssolli, Honório de Syllos e outros tantos.

Bauru, lamentavelmente, não conhecia ainda a penúria que o poeta passara na sua terra natal e, por força de uma política impiedosa, lhe trouxera dissabores sem fim. A mágoa disto tudo, de pessoas que não compreendiam o significado da candidatura de Amadeu Amaral a um cargo público como deputado, minou também a já debilitada saúde do cancioneiro capivariano-bauruense.

O tempo não o esqueceu

Passaram-se mais de quatro décadas, desde aquela memorável noite bauruense, para alegria de todos Rodrigues de Abreu não foi esquecido. Se as academias literárias não lhe deram entrada, ofuscando o seu brilho intenso de poeta e artista, os seus amigos, admiradores e pesquisadores jamais esqueceram da figura belíssima e humana, que por obra do destino apontou na Bauru fervilhante dos anos 1920 – Eldorado da Noroeste, até hoje a nos causar espantos pelo arrojo de sua gente, dinamismo que ampulsionou nestes seus mais de 100 anos de existência profícua.

Olvidado, assim, pelas instituições literárias, muito embora vendo nele a grande esperança nacional nas artes poéticas, Rodrigues de Abreu peregrinou, contagiando a todos com sua beleza artística e singeleza de homem culto, dotado de virtudes ímpares e de bondade extremosa. O poeta capivariano-bauruense soube cativar a simpatia dessa gente feliz e, na sua filosofia de vida, retribuiu nas manifestações de verso e prosa.

Amadeu AmaralLembramos aqui, à título de curiosidade, que Rodrigues de Abreu havia participado de concurso literário da Academia Brasileira de Letras. Da comissão de concurso, não de escolha do trabalho, estava Amadeu Amaral. Ao perceber que haviam preterido o seu trabalho, por um outro (que não lhe chegava aos pés), em atitude singular renunciou ao cargo da comissão e protestou veementemente pela discriminação, pelo simples fato de desconhecerem Rodrigues de Abreu e votarem num outro candidato, não no trabalho artístico de alta qualidade.

Numa busca que se fizer aos jornais da década de 20, folhando os anais sociais de Bauru, verá, em cada mensagem, a presença do poeta, entre as excelsas figuras da cidade, abrilhantando as solenidades cívicas e participando ativamente da história da “Terra Branca”.

É ele que nos dá o vigor de sua mensagem, concitando os homens para a alegria, como nestes versos inéditos:

“Ah, não sei como não encontro os homens saudáveis
rolando na terra e gritando: “Oh Vida! Oh Vida!”
Todos deviam andar admirados, felizes
por lhes ser permitido dizer: “Eu vivo! Eu vivo!”

Eu andei também ignorante, errando em tristeza.
Senhor! perdoai o pecado mortal de ter sido triste,
de ter dito alguma vez: “Oh vida maldita!”
e de ter escandalizado os meus semelhantes,
compondo versos dolorosos contra a vida!

O tempo que ainda me resta de vida,
quero viver, para resgatar do tempo perdido,
em intenso amor, gritando: “Eu vivo! Oh, Vida!”

Oh! a delícia de poder viver para perdoar injúrias,
para ajudar o próximo, para ser perdoado, para
ser também auxiliado!... ser amado.

Dizer: “Camarada! dá-me o braço amigavelmente,
não me ofendi, camarada, somos companheiros da mesma rota,
nós vivemos, nós vivemos!”

O poeta soube, na verdade, com toda força do seu ser, embrenhar-se pelos caminhos da virtude e da felicidade, muito embora esta última não lhe fosse recíproca. Mas espalhou carinho, benevolência e, acima de tudo, amou a todos com acendrado amor.

A vinda para Bauru

Precisamente, a peregrinação do poeta por esta terra ocorreu no início de 1923. O dr. Celso Epaminondas de Almeida, em carta ao poeta, o chamava para Bauru. Já então completamente desolado pela miséria e desencanto, resolve partir de sua terra natal. Por interferência desse seu grande amigo, consegue trabalho no Cartório de Registro de Hipotecas, onde o dr. José Alves Nunes liderava como oficial maior. Nascia uma outra grande amizade e reconhecimento deste para com a extraordinária figura da poesia. Estava, assim, selada a sorte do vate, quanto a sua permanência na Noroeste.

Dona Hilda de Barros Monteiro, senhora benemérita de Bauru, assim descreveu sobre o poeta e este tempo:

“Rodrigues de Abreu, com o seu temperamento alegre e folgazão, tornou-se logo conhecidíssimo e muito estimado por toda a sociedade de Bauru. Não havia festa, em clubes ou reuniões particulares em que o Abreu não fosse figura indispensável, e o centro de onde emanava sempre a alegria, a jovialidade, o espírito. Todos lhe reconheceram em pouco tempo a supremacia do talento.

E foi então que, instado por amigos que se maravilhavam com a beleza inédita de seus versos, resolveu reunir uma parte deles para serem publicados. Foi assim que surgiu “A Sala dos Passos Perdidos”, publicada em princípio de 1924. Para isso muito contribuiram os seus amigos drs. Alípio dos Santos, Celso de Almeida, Octávio Brisola e João Maringoni – que foram os verdadeiros estimuladores, os que incutiram no Abreu confiança bastante no sucesso e no renome que alcançaria com o aparecimento do livro.

Infelizmente, o sucesso literário correspondeu exatamente ao fracasso amoroso, e a mais rude e dolorosa das desilusões veio amargurar para sempre a sua vida. Sem uma desculpa plausível – verdadeiramente de surpresa – aquela que enchia a sua vida e que era a sua razão de lutar, porque, dizia ele, “pensava que a enchia de orgulho a sua subida”  resolveu desfazer o laço que os ligava e reclamou a restituição da palavra que empenhara. Vimos, então, transformado o Abreu, lutador corajoso e cheio de esperanças, em um desiludido, que viveria daí por diante por viver, sem mais escopo para o futuro”.

Este depoimento de dona Hilda de Barros Monteiro é a própria síntese da história da vida de Abreu, com toda essência de um amor impossível.

Rabindranath TagoreMas o poeta, muito embora esse desalento amoroso o envolvesse com tênua brisa, continuava a produzir os seus bons frutos literários. Participando ativamente da vida bauruense, encontrava ânimo suficiente entre as palavras alentadoras dos amigos, que não o poupavam de elogios merecidos. Isto funcionava como uma mola propulsora, capaz suficientemente de proporcionar o real estrelato do vate sonhador.

Em pouco tempo de aparecimento do livro “A Sala dos Passos Perdidos”, o seu nome ganhava manchetes. Os jornais do interior, da capital e, especialmente, da região da Noroeste, estampavam os seus versos e a crítica buscava espaços na imprensa para elogiar o trabalho desenvolvido pelo poeta.

Tamanha foi a empolgação sobre a sua obra, que passaram a tratá-lo como uma das maiores figuras da poesia brasileira que recebera de Tagore, o seu misticismo; de Hamsun, a espiritualidade; de Bilac, o patriotismo; de Nobre, o sentimentalismo e de Whitman, a humildade. Tornou-se centro das atenções e a imprensa não lhe poupava em saber do seu pensamento, de sua ação, de seus próximos lances, de suas idas e vindas.

Elogios da intelectualidade

Sobre a figura de Rodrigues de Abreu, alguns depoimentos de seus amigos de Bauru e de outros da época, colhidos de artigos, estudos, ensaios, crônicas e críticas, espelham o real valor de sua literatura:

Fernando de AzevedoAndrade Murici: “Esse moço paulista foi, na geração, o irmão deserdado, o irmão doente. Entre desportivos e gozadores, coube-lhe o quinhão da morte e o choro baixinho e humilde.”

Cassiano Nunes: “Rodrigues de Abreu foi um trovador saudável, um poeta que amava doidamente a vida, e toda a sua obra de doente, de candidato prematuro à Morte, é um Hino à existência, uma glorificação do mundo.”

Herculano Pires: “Esse poeta que é talvez o mais legítimo intérprete do aspecto literário do temperamento brasileiro.”

Fernando de Azevedo: “Rodrigues de Abreu foi um doce e melancólico sonhador.”

Afonso Schmidt: “Rodrigues de Abreu era uma dessas pequeninas flores anônimas que abrem no meio da relva, e que a gente, para bem admirá-las, tem de se por de joelhos.”

Paulo de Oliveira Leite SetúbalPaulo Setúbal: “Rodrigues de Abreu foi um poeta da estirpe sagrada dos eleitos.”

Jamil Almansur Haddad: “Rodrigues de Abreu foi uma das coisas mais sérias da poesia no Brasil.”

Silveira Bueno: “Serão necessários milênios para que, ao gotejar contínuo dos olhos torturados da humanidade, reponte, enfim, a joia rara de um cantor igual ao que a morte nos roubou.”

Nestor Vítor: “Rodrigues de Abreu foi uma linda inteligência de pensador e uma alma vastamente simpática.”

Narbal Fontes: “A poesia de Rodrigues de Abreu é como o ar, azul de tanto diáfano, e é através dela que nos chega sua dor infinita, peneirada em lágrimas, como chuva benéfica.”

Correia Júnior: “Há na poesia de Rodrigues de Abreu, acima da beleza de seus ritmos, acima das imagens que a cada passo nos põe aos olhos a poeira fluídica e doirada do encantamento – uma virtude que já vai rareando nos poetas, virtude, entretanto, que, a meu ver, constitui a única razão de ser da poesia: a sinceridade.”

Francisco Galvão: “Rodrigues de Abreu é o caminhante esguio e sonâmbulo da A sala dos passos perdidos. De olhos fechados, cismarentos, ele a atravessa com a displicência cômoda de um príncipe em exílio, esflorando lírios e pétalas de rosas no tapete lírico da alma da gente.”

Cassiano Ricardo: “Rodrigues de Abreu acordará, na sensibilidade de quem o ler, uma sonora repercussão de tristeza. Não é possível admirá-lo num dia de Carnaval. Mas é possível chorar com ele, num dia de sofrimento.”

Honório de Syllos: “Rodrigues de Abreu semelhava, com aquelas barbas pretas, que ele deixou crescer para não se lembrar que os barbeiros não têm alma, um suave e boníssimo missionário. Apóstolo e missionário.”

Agripino Grieco: “Rodrigues de Abreu era bem um poeta por dom inato. Sente-se-lhe a tristeza congênita de quem andou pelo mundo, para aplicar-lhe uma expressão que lhe era grata, como por uma Sala dos passos perdidos.”

Maragliano Júnior: “Rodrigues de Abreu se fez poeta, e fez-se amado, pelo coração. Seus versos, como um fio d’água, escorriam da fonte da bondade, insinuando-se humildemente pela floresta das almas humanas.”

Bauru adotiva

Menotti del PicchiaRodrigues de Abreu não chegou por acaso nas terras bauruenses. A sua peregrinação na Cidade dos Espantos teve um sentido maior, tão imenso como a sua personalidade. Descoberto por Menotti del Picchia, e isto é reconhecido pela unanimidade, o moço “jazz-band” que Capivari, “ viu nascer, desejou, antes de mais nada, ser padre. E os superiores de Lavrinha viram nele esta extraordinária inclinação para o sacerdócio.

Mas o tempo, entretanto, não confirmou esta inclinação, porque o próprio poeta, em dado momento de sua vida, achou que não tinha vocação ao caminho à ordenação sacerdotal. A sua vida já estava traçada para a literatura, assim como ele bem disse a seus amigos e mais chegados.

E nesta trajetória difícil, eis que o poeta aponta em Bauru, no início de 1923, em busca de trabalho e de novos ares, já que a maioria dos seus se encontrava aqui, principalmente a sua irmã Anézia, amiga conselheira.

Havia o poeta perdido a sua mãe, em 1918 e, desconsolado, perdera o rumo que esta senhora lhe havia dado com especial carinho materno. O poeta, na sua sensibilidade infinita, penava pelo desaparecimento prematura dessa grande figura que tanto influenciou o seu caráter. E o convívio, aqui, com os seus, lhe renderia uma vida melhor, já que as portas de Capivari lhe haviam fechadas, pelos matraqueiros políticos e tendenciosos pela sorte da pequena terreola.

Como dissemos, Bauru, na década de 20, efervescia e foi por estas bandas que fincou a sua estada de literato e por aqui escreveu a maioria de suas poesias. É vedade que desde aos 16 anos já compunha versos, mas o grosso de sua arte floriu aqui em Bauru, num ambiente acolhedor, como ele mesmo costumava dizer.

Recorda o dr. Gabriel Maria Castilho de Almeida, que conheceu Rodrigues de Abreu muito de perto, já que os pais daquele o recepcionavam constantemente e o tratavam como um filho:

“Numa ocasião em que Abreu estava doente e em grande penúria, o Centro Bauruense lhe fez uma festa de arrecadação de fundos. Ao término destas festividades, os sócios deram a palavra final ao poeta. E o seu discurso, erudito, além de muito aplaudido, foi seguido de lágrimas, por todos os presentes. E no final de suas palavras, ele dizia com aquele olhar de poeta universal e de espírito altamente cristão: ‘O que mais me comove é a gentileza dos promotores desta festa, homenageando o artista, para socorrer o homem’. Este episódio foi relatado pelo Dr. Maringoni e pelo seu estimado amigo Pupo.”

Para avaliar o quanto ele tinha de amor pela cidade Sem Limites, reproduzimos o poema “Bauru”, uma vocação literária, um verdadeiro hino que precisa ser difundido com largueza e profundidade a todas as gerações desta terra:

Moro na entrada do Brasil novo.
Bauru, nome-frisson que acorda na alma da gente
ressonância de passos em marcha batida
para a conquista soturna do Desconhecido!

Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado na estrada,
no meio da cinza ainda morna
do último bivaque dos Bandeirantes...

Cidade de espantos!
Carros de bois geram desastres com máquinas Ford.
Roll-Royces encalham beijando a areia.
Casas de tábua mudáveis nas costas;
bungalows comodistas roubados da noite para o dia,
às avenidas paulistas...
Cidade de espantos!

Eu canto a estesia suave dos teus bairros chiques,
as chispas e os ruídos do bairro industrial,
a febre do lucro que move os teus homens nas ruas do centro,
e a pecaminosa alegria dos teus bairros baixos...

Onde é que estão brasileiros ingênuos,
as úlceras feias de Bauru?

Vi homens fecundos que fazem reclamo da Raça!
Eu sei que há mulheres fidalgas que ateiam incêndios
na mata inflamável dos nossos desejos!
Mulheres fidalgas que já transplantaram
o Rio de Janeiro para este areal...

A alegria buzina e atropela os trustes nas ruas.
A cidade se faz a toque de sinos festivos,
a marchas vermelhas de música, ao riso estridente,
de Colombinas e de Arlequins.

Por isso, cidade moderna, a minha tristeza de tuberculoso,
contaminada da doença da tua alegria
morreu enforcada nos galhos sem folhas
das tuas raras árvores solitárias...
Eu já tomei cocaina em teus bairros baixos,
onde há Milonguitas de pálpebras murchas
e de olhos brilhantes!

Rua Batista de Carvalho!
O sol da manhã incendeia ferozmente
a gasolina que existe na alma dos homens.
Febre... Negócios... Cartórios... Fazendas... Café...
Mil forasteiros chegaram com os trens da manhã,
e vão, de passagem, tocados da pressa,
para o Eldorado real da zona noroeste!

... Acendi meu cigarros no toco de lenha deixado ainda aceso
na estrada, no meio da cinza
do último bivaque dos Bandeirantes...

Francisco da Silveira BuenoE enquanto o fumo espirala, cerrando os meus olhos,
fatigados do assombro das tuas visões,
eu fico sonhando com o teu atordoante futuro,
Cidade de espantos!

Este poder de Rodrigues de Abreu de transportar para os versos o seu sentimento profundo, altíssimo, deve ser encarado como algo sobrenatural. Jamais poderíamos situá-lo como um poeta de estrela menor na constelação dos grandes vates brasileiros e universais. É verdadeiramente importante que se produza obras de estudos sobre a personalidade de Abreu, a fim de podermos observá-lo em todos os ângulos possíveis e imagináveis, como assim o fizeram os americanos na figura de Walt Whitman, de quem Rodrigues de Abreu sofreu influência na beleza e delicadeza de seus versos líricos.

Não foi sem razão que Silveira Bueno, em magnífico estudo sobre a personalidade de Rodrigues de Abreu, o situou entre os grandes do universo, elevando-o aos píncaros dos clássicos de todos os tempos.

A crítica rodrigueana

Há uma corrente fortíssima de ensaístas e estudiosos das obras do poeta que nos diz categoricamente que Abreu viveu além do seu tempo. O pensamento futurólogo de muitos ( e esta é uma área que desconhecemos e que nos permite, assim, silenciar) diz que Abreu via muito além da imaginação reinante na década de 1920.

No livro Casa destelhada, encontramos vários trabalhos que atestam sobejamente o espírito modernista e avançado do poeta, principalmente quando ele nos diz no final do seu poema “Mar Desconhecido”:

Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.

Rodrigues de Abreu, sem sombras de dúvidas, antevia algo além da imaginação. Esta sua andança por caminhos trôpegos, no silêncio das escolas salesianas e na soturnidade reinante na sua velha Capivari, fê-lo descobrir um mundo diferente dos homens mortais. Talvez isto tenha ele herdado também de suas meditações indianas, principalmente da leitura do místico Tagore.

Allan KardecVêmo-lo, muitas vezes, incursionando pelos caminhos de Allan Kardec, a divagar sobre a outra vida – que não esta terrena. E o seu pensamento chegava às alturas, produzindo uma poesia casta, rica e universal.

Talvez tenha sido ele o poeta brasileiro que mais se apoderou do universo que a poesia nos deleita. E é costume dizer correntemente, que Rodrigues de Abreu viveu a poesia intensamente, fazendo arte com uma paixão desenfreada. Isto podemos notar não só em seus versos, como em trechos de suas cartas a amigos e confrades.

Ainda desconhecemos a produção exata dos seus trabalhos, o que sempre tem nos causado embaraços, quando a citação fica tão somente restrita à Sala dos passos perdidos e à Casa destelhada.

A poesia espiritual que Rodrigues de Abreu produziu, ao lado de peças teatrais, necessita de mais uma pesquisa intensa e busca incansável para colocá-la no rol das grandes estrelas da literatura brasileira – o que seria justo a se deparar com o conteúdo que já conhecemos.

Para que todos estes amaranhados de trabalhos tivessem uma condução só, seria preciso que, antes de mais nada, Bauru lhe reservasse um espaço público, como é o desejo de muitos, na criação da “CASA DE RODRIGUES DE ABREU”, em memória deste eterno homem das letras. Aos reclamos culturais, já que o culto à sua personalidade seja uma constante, mereceria do poder público municipal de Bauru esta homenagem póstuma e significativa ao seu filho adotivo.

Pensamos, assim, que com a criação desta Casa, o acervo do poeta, ainda que mais representado por fotos e documentos, que objetos pessoais, teria uma só base, ou melhor, seria o local convergente para se conhecer a figura universal deste criador das mais belas páginas do romantismo poético do nosso país. Fica a sugestão, é a disposição de nossa parte em ceder todo o acervo que possuímos sobre o poeta, nesta caminhada de mais de 30 anos de estudos e coleta de material.

Amor à arte – tristeza infinita

Rodrigues de Abreu foi uma figura de suma importância para Bauru. Ao que pese o desconforto e o desconhecimento generalizado do seu trabalho artístico, o seu nome ainda brilha intensamente nos olhos da crítica sempre feroz ao que se produziu na história poética do século passado. E quantos foram e são os seus seguidores literários e os seus admiradores de sempre.

Foi, na expressão de muitos dos seus contemporâneos, um caso atípico de amor às artes. Produziu, com sofreguidão, trabalhos de alto valor. E quem não conhece a delicadeza destes versos que espelha a sua própria existência, quando ele falava da “Casa destelhada”:

A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.

(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração).

A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...

(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente
na terra molhada do meu coração).

Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!

Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa aguente mais um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!

Esta é a vida do poeta. Vida que, como ele mesmo se expressa, “veio do nada, lutando com a adversidade”. Este é o poeta que do íntimo produziu as mais ricas páginas da literatura romântica em nosso país. Os seus contemporâneos o classificavam como o melhor do seu tempo. Foi brilhante nas artes; foi grande como ser humano. Enriqueceu a nossa cultura literária com um sabor todo especial da palavra amor. Teve, em toda a sua existência, o gesto de um São Francisco de Assis.

É o poeta que diz, na sua linguagem clássica, na delicadeza de seus versos, sobre a sua efêmera passagem pela terra. É o poeta que dedilha a sua harpa e, em bocejos sonolentos, pasmado ante a dor das entranhas de uma tuberculose infinda, ao se expressar na “Litania das minhas noites”:

Doçura estranha da minha mágoa!
Tristeza sutil da mocidade!
Meus olhos, sem motivo, rasos de água!

O fel violento que bebi na vida!
Minha esquisita vida de saudade!
Saudade vaga em lágrimas deluída!

A doçura do sangue em minha boca!
Minha inquietude cheia de ansiedade!
Longas insônias da minha alma louca!

Meu desejo feroz de humilhação!
Não ter um movimento de bondade,
apesar de rezar tanta oração!

Manhãs de cinza, dias de neblina,
noites sem lua, na visualidade
nevoente de quem toma cocaína!

Ah!, julguei que sentisse assim a vida
porque tivesse a sensibilidade
de uma alma sutil, desconhecida...

E em vez, isso provém deste mal físico:
a minha enorme sensibilidade
nasce das minhas vibrações de tísico!

Oh! saudade do tempo em que era doente
e em que desconhecia a enfermidade
e em que chorava à toa, inutilmente...

Já perdi a beleza de sofrer.
Minha tristeza vem deste mal físico.
Foi-se o bem de ser doente sem saber...

Antes nunca soubesse que sou tísico!

Só por este poema, podemos sentir a infinita doçura que Rodrigues de Abreu possuia e a capacidade de se expressar em versos. Nunca lhe faltou, porém, a vibração enorme e a segurança de escrever. Tanto é verdade, que até os últimos dias de sua vida, escrevia (e muito), produzindo poesias que, hoje, fazem parte da nomenclatura histórica da nossa vastíssima literatura. Não se pode, jamais, esquecer de seus versos, da sua bondade, da sua humildade – características estas marcantes na vida que levou.

O reconhecimento de Bauru

Rodrigues de AbreuBauru foi para Rodrigues de Abreu uma expressão maior: uma casa acolhedora, onde ele pode, em todo o momento de sua peregrinação, contar com mãos poderosas, sempre atentas a lhe amparar. Seria desnecessário, em poucas palavras, relacionar a imensa lista de famílias, pessoas, entidades, empresas, amigos, admiradores, que lhe rendiam a homenagem e se associavam a sua dor.

Numa rápida busca aos jornais de Bauru, da década de 1920, bem como saber de antigos moradores da cidade, serão unânimes em manchetes elogiosas ao poeta e a palavra da história oral, dizendo realmente que Rodrigues de Abreu se confunde com a própria história de Bauru. Foi um momento maior da cidade, quando a sua presença era motivo de curiosidade e, por onde andasse, uma febre extraordinária de pessoas querendo uma palavra sua, um gesto sequer, para guardar como relicário para a sua posteridade.

Era assim o poeta da humildade e da resignação: um beneditino que tinha o poder eletrizante da palavra e do verso.

Até o derradeiro dia de Rodrigues de Abreu, não lhe faltaram com o apoio, a carinhosa acolhida, o conforto que o poeta necessitava para a sua longa viagem de ida. A crônica bauruense, sempre atenta, demonstrou o carinho que a população lhe tinha, não o deixando no desamparo.

Depois da sua partida, vieram as homenagens, perpetuando o seu nome e a sua literatura em escolas, praças, ruas e centros de cultura. Foi e é assim que Bauru pode ser considerada a sua cidade querida, o seu berço eterno, já que o próprio poeta pediu para que os seus restos mortais fossem sepultados no Cemitério da Saudade.

Rodrigues de Abreu foi um poeta bom. O “Desejo bom”, que aqui reproduzimos, fala por si a grandeza do seu coração:

Eu seria feliz, se os meus versos se impregnassem
dessa humildade silenciosa e boa
das estações pequenas dos subúrbios,
das cidades velhas e castas,
dos bairros pobres das cidades ricas
e dos arrebaldes abandonados;
se eles tivessem a alegria honesta
das tardes que caem nos bairros operários
aglomerando boas almas nas calçadas;
se revelassem um pouco do alto encanto
que há nos ranchos das crianças pobres
bailando na poeira das ruas
ou nos quintais varridos das fazendas;
se eles dissessem do contentamento ingênuo
de operários que jogam aos serões domingueiros,
ou bebem ruidosos nas tavernas rumorosas!

Mais do que isso, porém, quisera que em meus versos
palpitasse o sofrimento dos anônimos
tão fundo e tão doloroso!
Quisera que neles clamassem
todos os homens oprimidos:
os que esperam a festa dos dias vindouros,
pobres pequenos que têm sede de justiça!

Assim os meus versos teriam,
na alegria profunda e na tristeza profunda,
o sabor das canções que nasceram nas ruas.
E eu me orgulharia de escrevê-los,
pois sou dos pequeninos e dos simples.
E vi que a Dor e o Amor, entre os humildes,
têm um sentido mais tocante no infinito!

Eis, pois, a nossa modesta contribuição à memória de Rodrigues de Abreu, na data de 27 de setembro passado, que se comemorou os 114 anos de seu nascimento.

J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador

 

 

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