Imprimir

Tarde de Ópio

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

A brasa do sol que caiu na montanha
acendeu o cachimbo de um deus solitário.
Vêm de lá espaçadas baforadas,
nuvens leves que se vão diluindo no ar.

Decerto é ópio que este deus viciado fuma.
Porque eu estou ficando bêbado, eu estou
sentindo dentro em mim uma felicidade,
uma esperança que me faz quase chorar...

Esperança de voltar, para o rebanho humano,
sem algas nos pulmões, sem cansaço, e depois
encontrar uma menina que me ame...
(Que vontade, Deus meu, de me casar!) 

E espichando o meu corpo cheio de ossos
na cadeira de lona, olho o céu tão paciente,
tão caricioso como uma enfermeira;
cerro os olhos de leve, e me ponho a sonhar... 

É ópio mesmo que esse deus viciado fuma:
espalhou-se no ambiente a essência da ilusão.
Haverá no Brasil menina que me espere?
E esperará por muito tempo?
                        Vou chorar...

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925.

 

 

EMPRESAS COM
RESPONSABILIDADE SOCIAL
linha_sep_sfdum-dumemecarrara