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Estrada Iluminada

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Na manhã de domingo
pela estrada iluminada
passa uma menina loura.
Tão loura, tão iluminada,
que o sol, ao bater em sua fronte,
fica a fulgir, como a moeda de ouro puro
fulge aos olhos cobiçosos de um mendigo.
Vem alegre, puxando o seu burrinho manso...
— "Para onde vai você, menina loura?"
— "Meu senhor, vou vender couves lá no mercado..."
— "Olhe, eu quero comprar as suas couves:
dê-me dois maços, menina loura,
por esta moeda de prata". 

E ela fica a sorrir, enleada e encantada,
ao receber assim tanto dinheiro.
Olha a ponta dos pés que estão descalços,
e põe-se a sorrir para mim, tão contente
que uma lágrima abençoada
baila em meus olhos tristes.
E sem jeito ela sai, sem despedir-se,
puxando o seu burrinho manso. 

Fico a olhá-la, feliz, curvando-me da grade.
Como é linda a menina loura!
Ela não tem receio algum dos pobres tísicos,
pois sabe que os pobres tísicos
é que dão vida a esta vila sombria. 

Ainda de longe ela volta a cabeça e me espia.
Faz o gesto do adeus esquecido ainda há pouco...
Linda menina loura!
Moeda doirada de saúde,
fulgindo ao meu olhar cobiçoso de doente! 

E entro no meu quarto, apertando contra o peito
os dois maços inúteis de couve,
como se fossem duas rosas encantadas.

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925.

 

 

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