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São Paulo

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Longe, nesta estação de cura,
é que a cidade de São Paulo vive em mim.
Porque ela está em mim, edificada
na colina nevoenta da minha saudade. 

                * * *

Garoa... Chuvisco...
Mas, a febre do ouro entupiu o Triângulo...
Bancos... Cafés... Que tumulto, Deus meu!
Nesta Babel, os paulistas enlouqueceram,
já nem sabem falar o português.
Um automóvel raspou nos meus pés... 

Vá para o diabo, Civilização!
Muito melhor a carruagem de antanho, com cavalos brancos,
                 cocheiros de gala e com muita educação.
Neste atropelo nem se pode mais sonhar:
perdi, aos encontrões, a rima rica que buscava.
E há tantos jornais, que nem leio os jornais;
namoro os livros nas vitrinas da "Garraux".
– Quanto é este livrinho?
                   – 10$000.
                         (Irra! ladrão).
Nesta terra não se deve saber ler!

Mas, que linda cidade para o olhar!
Dizem que há caixeirinhas que vendem os corpos por
                                   meias de seda
e jantar apimentado na "Gruta Bahiana"...
(Mas nunca os compre.)
E o "footing"... Que linda procissão de pecados, Senhor!
Alguém já disse que São Paulo é a cidade das mulheres de raça.
E disse bem. 

Mas, cai a noite ermando a cidade no véu da garoa.
Cidade industrial, sem vida noturna.
Rapazes beberrões, num automóvel,
passam cantando pelas ruas mortas:
"Eras, sim, Milonguita..."

Um bonde pisca ao longe. Mais outro espaçadamente...
Já não há passageiros para os bairros.
A tristeza dos bondes retardatários... 

           * * * 

São Paulo edificado em mim!
A minha alma é um bonde vazio
descendo a Ladeira do Carmo da minha saudade,
envolto no véu da garoa noturna...

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925. 

 

 

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