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Os Amigos

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Deus me concedeu a graça
de inumeráveis amigos.

Tenho os amigos anônimos que os meus versos criaram.
E eu sei que neste instante almas sensíveis
rezam por intenção da minha cura. 

Tenho amigos bondosos que vejo todos os dias,
que vêm à minha casa assiduamente.
Todos me trazem uma palavra amiga
para me encorajarem.
Contam as curas de que souberam. 

Ensinam-me remédios maravilhosos,
e dão-me conselhos úteis.
Todos eles dizem que a minha doença
é um motivo de beleza para a minha vida:
"Ô meu querido poeta tísico!"
E me reafirmam que a minha tísica
não lhes causa o mínimo receio.
Eu quero muito a esses amigos!
Bondosos amigos! Bondosos amigos! 

Mas, o amigo que eu amo extraordinariamente
é aquele tipo boêmio, que não sabe o que é responsabilidade.
Que saiu de casa em pequeno, que não conhece parentes,
e por isso me ama como se fosse a sua irmãzinha.

Ele entra em casa gritando: "Rodrigues, meu poeta!"
E me conta a história de uma mulher bonita,
que o fitou escandalosamente, na claridade da rua,
ali mesmo na esquina.
"Está no papo, meu poeta...", e anda de um lado a outro,
com ares terríveis de infelicita-lares...
Convida-me para ir ao bar beber cerveja.
Do bar quer levar-me à força pros cabarés ruidosos,
onde diz que há petisco chegando de fresco... 

Sei que ele faz isso por bondade.
Finge não perceber que eu sou doente e cansado,
para dar-me a ilusão de que ainda sou útil. 

É esse o amigo que eu amo extraordinariamente.
Não me fala em doença, não me ensina remédios.
Mas, fala-me na vida, leva-me pela vida.
E dá-me a sensação abençoada e esquisita
de que em meus lábios está florindo a rosa fresca da Saúde
que irei despetalar doidamente na vida!

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925.

 

 

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