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Quando o Amor Chegar

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Minha querida criança,
a parte melhor da tua vida
é essa em que estás, numa doida esperança,
à procura de qualquer cousa que não chega,
de qualquer cousa que te desassossega,
porque te é desconhecida. 

Pensas que alguém virá coroar-te de estrelas.
Pensas que alguém virá encher a tua vida,
tão fresca, tão lumnisosa,
da inalterável paz abençoada.
– E entre as flores que se debruçam nas janelas,
ficas, como um botão deslumbrante de rosa,
olhando atentamente a tua estrada. 

Minha querida criança,
é inútil, a tua constante procura.
Ele virá quando estiveres distraída.
Chegará sem que o percebas,
se apossará de toda a tua vida,
para tua ventura e desventura. 

Quando sentires uma angústia sem nome,
misto de medo e de felicidade,
e morrerem nos teus lábios
as palavras de ingenuidade;
quando mesmo à tua mãe e ao teu irmão
ocultares o motivo da tua tristeza,
e, na inquietude do teu coração,
tiveres pudor de olhar o teu próprio corpo
e te causar pavor a tua própria beleza; 

quando te surpreenderes chorando baixinho,
sem motivo, docemente;
quando, no desassossego das tuas noites, 
te aparecer grande e vazio
o teu pequeno e perfumado ninho;
quando as tuas lágrimas solitárias
forem o teu derradeiro consolo;
quando, ó minha pequena inocente,
sentires todas as ansiedades,
o desejo torturante de todos os flagícios,
e fores capaz de todas as humildades
e de todos os sacrifícios:
o Amor, que desconheces e procuras,
terá entrado em tua vida,
para a tua ventura e desventura.

Nem saberás como foi isso.
O teu riso matinal morrerá no teu peito.
Gelará, num momento, essa doida alegria.
Verás morrerem as rosas...
E então perceberás que encontraste o Eleito
que fará, sem querer, mudar-se o claro dia
nas longas noites dolorosas.

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925. 

 

 

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