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Buena - Dicha

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

– "Cigana de olhos profundos,
eu quero que você leia nas minhas mãos
todo o meu passado breve". 

– "Que longas mãos de artista! O senhor foi artista.
O senhor já foi rico e já foi poderoso.
Viajou por todo o mundo conhecido.
Já teve palácios rutilantes
em todas as avenidas debruçadas
sobre os mares de todos os países.
Teve amantes sem conta. Teve a felicidade
de ver morrer nos próprios braços, amorosa,
a única mulher que neste mundo amou...
É esse o seu passado.
Dizem as linhas das suas mãos." 

(Penso. Meu passado: pobreza e subserviência...
Os meus anos intermináveis e nervosos
na cidadezinha feia e triste em que nasci...
A minha tortura de tímido amoroso,
que nunca teve entre os seus braços uma amante
e que nunca chegou a ser amado...) 

– "Que longas mãos de artista! O senhor é um artista.
Mas, atualmente faz negócios. Acumula
nova fortuna para um novo desperdício.
É amado das mulheres, muito amado.
As suas mãos, os seus olhos tão febrentos
dizem da agitação tumultuosa que o impele
para a vida de lutas e de gozos.
O senhor não tem amigos, mas só inimigos...
É este o seu presente.
Dizem as linhas das suas mãos".

(Penso. As minhas noites sudorosas de insônia...
Horas tristes, depois das hemoptises,
em que, exausto, acaricio um inútil revólver,
sem coragem para pôr ponto final à vida...
Eu não tenho inimigos; meus amigos
são meu único consolo...) 

– "Cigana de olhos profundos,
eu quero ouvir o meu futuro".

– "Que longas mãos de artista! Será sempre um artista.
Ó meu Príncipe Feliz, meu Príncipe Encantado!
Seu nome saltará os mais vastos oceanos.
Hão-de pôr-lhe na fronte a coroa de louros,
como faziam aos gênios simples e felizes,
nas épocas passadas de elegância.
Seu povo viverá na sua arte profunda.
As mulheres serão suas amigas.
Os homens serão seus camaradas.
E terá, num fim de vida longa, bondosa e opulenta,
morte breve, no sossego e na beleza.
É este o seu futuro.
Dizem as linhas das suas mãos." 

(Passa pelo meu corpo um fluido suave.
Na rua a gente vai e vem: vida que chega e passa.
Quem pode conhecer a outra vida que vem?
Mas, Deus às vezes dá o dom das profecias...
O ouro do sol clareia os meus olhos nevoentos.
Vejo tudo brilhar! Quero viver a vida!
As ciganas quase sempre têm razão...)

 

Publicado no livro Cadeira de lona, em 1925.

 

 

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