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Mudanças

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

                  I
Nasci numa casa branquinha,
que era um pedaço de nuvem branquinha no azul da montanha.
Dos altos, espiava os campos e os longes,
por amplas janelas, que os céus azulavam,
e que eram iguais aos olhos simpáticos
das mulheres louras... 

Uma noite, contei as traves do teto.
Senti no meu corpo um calor desusado.
Senti na minha alma um anseio esquisito...

Saí de manhã, deixando na casa dos olhos azuis,
para sempre esquecida no azul da montanha,
a minha inocência!

                 II
Cresci numa casa de mansos jardins.
Os lírios floriam magnificamente,
as rosas vermelhas e breves
punham tonturas no ambiente feliz.
Os peixes faiscavam na clara piscina prateada do sol.
Um Pan cabeludo deixava escorrer na flauta de pedra
o sonido irônico das águas que fogem.
Aves giravam, gritavam no longo beiral colonial... 

Aí entre as flores, as águas e as aves,
vivia a minha feliz Mocidade!

             III
Em frente a essa casa morava a Beleza-Mulher.
Ela vivia cismando, entre moças nuas e suaves,
que um Gênio lascivo encantou em estátuas...

Quando a tarde embuçava as distâncias,
a casa da frente se enchia de luz.
Então com o orvalho bendito da noite,
descia ao jardim da minha alma de moço,
levemente, levemente,
como um chamado sutil de mulher...
Eu ia à janela, ficava a sonhá-la,
sentia-se chegar, pequenina e frágil,
e encher os jardins, a casa, a minha alma, 
Senhora absoluta da minha existência... 

E nas minhas noites vazias, sombrias,
cresceu, como um fogo, o ardente Desejo! 

                IV
Um dia, fechou-se a casa da frente.
Pelos jardins desolados, 
por minha alma desencantada,
errou o fantasma da Desolação... 

Eu fiz um bordão de um galho sem flores:
e triste e pesado, saí pela vida,
em busca de quem me criara o Desejo. 

              V 
Numa casa deixei a minha Esperança:
noutra deixei a minha Ilusão...
Em todas deixei, desoladas e impressas,
as manchas que a Angústia verte em silêncio! 

Nem sei se tenho alma com que, hoje, povoe uma casa pequena!

              VI
Ontem, quando com as garras da Gata-Memória
raspava no crânio toda essa sofrença,
ouvi que batiam à porta, de leve... 

A mulher que busquei, como um louco, na vida,
com o ar encolhido e infeliz de quem quer um pouso,
estava parada na minha presença! 

Senti no meu corpo um longo arrepio.
Dentro de mim, sepulcro caiado,
qualquer coisa morta, de novo surgia, ressuscitava! 

Como isso pensasse,
tomei pelas mãos a mulher que esperava um convite.
Levei-a, correndo, até a casa longínqua,
onde deixara, num dia enevoado de melancolia,
a Mocidade perdida e o desejo infeliz. 

               VII
O portão estava fechado a cadeado,
espinhos espiavam, hostis, pelas grades...
Os grandes jardins, outrora suaves,
tinham morrido no horror do abandono.
O vento levara as almas dos lírios e as almas das rosas.
Pan, triste e só, tinha a flauta quebrada...
E como uma chaga e uma lástima funda,
a rica piscina, sem música irônica, sem água cantante,
ofertava aos céus o triste holocausto do fundo torrado... 

E no alto, pregada à parede, uma tabuleta,
em letras vermelhas, burguesas, dizia:
"ACHA-SE À VENDA ESTA CASA".

 

Publicado no livro Lâmpada Inquieta, em 1922. 

 

 

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