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A Beleza Passageira dos Meus Olhos

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

                   I
Tomas, entre as mãos finas o meu rosto
cor de cera, tão triste e desgastado...
E examinas, com dor, o meu perfil chupado,
obra acabada da tristeza e do desgosto. 

Ficas a olhá-lo, atenta; depois, numa
enervante carícia, o apalpas, desolada...
Sinto, como um veludo, as tuas mãos franzinas,
querendo desfazer-me as rugas, uma a uma,
e tirar-me a expressão romântica e angustiada!

Lutam, em vão, as tuas mãos divinas...

Não mudarás, querida, a expressão do meu rosto,
d'onde, há muito, fugiu o alto sol da alegria:
não tentes colorir, sendo o sol posto,
a torturada palidez de uma tarde sombria...

Mas, tuas mãos franzinas e esmoleres
passam pelo meu rosto com bondade:
e têm, passando, tanta suavidade,
como se desfolhassem mal-me-queres... 

            II
Nisto, olhas-me bem nos olhos, longamente.
Já nem ouves as coisas que te digo...
O teu olhar é tão molhado e persistente,
que, julgando-o talvez a expressão de um desejo,
te aproximo de mim, te puxo brandamente
e fico à espera da doçura do teu beijo!

Mas, teu beijo não vem... Estás completamente
alheia às frases suaves que eu te digo:
tens olhos só para os meus olhos... 

                            De repente
batendo as palmas, dizes, rindo alegremente: 

— "Os teus olhos são lindos, meu amigo!
"Que importa a palidez do teu rosto, que importa
"o anguloso perfil do teu rosto de poeta,
"desgastado talvez por angústia secreta?
"Também, às vezes, no livor da tarde morta,
"qualquer coisa que eleva o coração à prece:
"na tarde triste, no silêncio, é que aparece
"a estrela boa que embeleza o firmamento. 

"Só agora compreendo, jubilosa,
"todo o esquisito encanto que eu sentia,
"frente a frente, ao fitar o teu rosto de cera.
"Tão ingênua que eu fui: não percebera
"que na tristeza do teu rosto havia 
"uma beleza boa e silenciosa,
"e que uma fada alegre e misteriosa
"de dentro dos teus olhos me sorria...

"Os teus sonhos estão nos teus olhos brilhando:
"teus olhos riem no teu rosto triste!
"Um dia, eu sei, largaste a linda frota
"dos teus ideais num mar de azeite brando:
"ias partir para região ignota,
"buscar, como os antigos mareantes,
"os imensos tesouros deslumbrantes
"que nos teus sonhos vias rebrilhando...
"Dançaram sobre as ondas cem mil velas; 

"a Esperança cantava em todas elas...
"Tu quiseste partir e não partiste:
"e ficaste, entre os mais, na praia triste,
"triste acenando para as caravelas
"que no alto-mar aos poucos se sumiram! 

"Tu quiseste partir, mas não partiste:
"mas, os teus olhos, sim, esses partiram...
"Por isso, nos teus olhos de veludo,
"estão chispando pedrarias e ouro velho.
"E há tanto brilho e tal fulgor em tudo,
"que eu penso até serem teus olhos um espelho,
"que andou pelos palácios encantados:
"vivem a refletir continuadamente,
"pomposamente, tudo o que eles viram:
"— os tesouros em sonhos encontrados,
"armas de heróis fulgindo ao sol ardente,
"e torneios feudais a que assistiram...
"Como são lindos os teus olhos, meu amigo!" 

E nisto, tomas entre as mãos meu rosto doente,
e alegre beijas os meus olhos, suavemente... 

                  III 
Oh! minha doce amada, eu concordo contigo:
os meus olhos são lindos mas somente,
quando eles têm, amor, a alta ventura
de ver neles brilhando, alegremente,
o encanto bom da tua formosura! 

Era tua beleza, era tua a alegria
que notaste, inda há pouco, em meus olhos, Amada:
pois a fada que neles te sorria,
eras tu mesma, inspiradora fada!

 

Publicado no livro Lâmpada Inquieta, em 1922.

 

 

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