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Contrição

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Eu fui um vento mau no jardim sossegado
da tuda vida. 

Vivias cercada de flores,
de águas encantadas e sonoras,
de repuxos irisados e barulhentos,
de estátuas musgosas fingindo deusas na espessura.
Vias a vida toda verdura
com os teus olhos verdes e silenciosos,
cheios da verdura silenciosa do ambiente.
Os pássaros familiares, como frutos animados,
pendiam, em gorjeios, dos ramos verdes,
donde pendia o baloiço da tua mocidade!

Eu passei pela estrada poeirenta,
num dia poeirento de estio.
Vinha de longe, fatigado e sombrio,
na tarefa inútil e rude
de espanejar as estradas sem fim.
Vinha cansado, vinha irritado... 

Vi o jardim sossegado da tua vida,
o jardim da tua ingênua mocidade.
Eu poderia ter passado pelo alto,
muito por alto do teu jardim.
Por não crestar-te com meu hálito quente,
poderia ter tangido o meu pó para a casa dos astros,
enchendo de poeira o sol e as estrelas.
Mas, parei de repente.
Vinha fatigado, e mais que fatigado,
vinha sombrio:
e entrei, num rumor de folhas mortas,
no teu jardim adolescente! 

Tu abriste os teus braços ingênuos e moles
ao vento mau que espanejava as estradas.
Tu me julgaste o Esperado.
Tu me julgaste a brisa mansa,
que enchesse o teu jardim
do rumor da vida por que esperavas,
na vaga inquietude de tua alma virgem... 

Minha Amiga! perdoa-me
todo o mal que te fiz.
As lágrimas de inquietação
que fiz nascer nos teus olhos serenos;
a morte da tua primeira ilusão;
a morte da fé na virtude;
a morte da alegria da tua vida ingênua,
que se foi dolorosamente, 
ao contato nervoso e mau
das minhas pobres mãos lascivas!

 

Publicado no livro Lâmpada Inquieta, em 1922.

 

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