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A Visão Estreita

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Um dia Deus me disse: "Vê a Vida!" 

Eu deveria abrir violentamente
as janelas dos meus sentidos,
e escancará-las sobre a Vida. 

Eu deveria ver atentamente
as grandes cidades do meu país,
cheias de fábricas, de escolas,
de bibliotecas, de parques e jardins.
E os homens que passam pela minha frente
com um ar estranho de felicidade,
e que vão para doze horas de ansiedade e canseira;
e as moças das fábricas, que vão para o trabalho,
como se fossem para o seu namoro;
e as crianças em caminho das escolas;
e todo o mundo que vai e vem, por isto ou por aquilo,
nas grandes cidades do meu país. 

Eu deveria ver atentamente
as pequenas cidades do meu país,
onde não há necessidade de jardins
porque as ruas são cheias de mato bravio.
Ver as velhas que vão, como ia a minha avó,
a caminho das rezas e novenas;
e as Filhas de Maria, vestidas de branco,
sorrindo alegremente, ingenuamente,
nas procissões dolorosas do Senhor-Morto;
seguir, alma moleque, pelo espaço
os rojões doidos espocando clamorosos:
deveria escutar curiosamente nas farmácias
os velhos que remoçam ao falar de política;
sentir a poesia que escorre com a chuva lenta
dos beirais das velhas casas coloniais,
no dia em que as primeiras andorinhas erguem voo;
e compreender o desconsolo desses moços
que não falam de política e não esperam nada,
e que não têm a coragem suficiente pra deixar
as pequenas cidades do meu país. 

Deveria ver os campos imensos,
a vida agrícola tão curiosa e variada:
os homens suarentos preparando carinhosos
o seio farto da terra para receber a semente;
os meses das roçadas, das derrubadas, das queimadas,
– céu de Agosto fumarento, amarelo de opressão;
"Eh! bois! Eh! burros!", e o arado fundamente
abrindo sulcos paralelos no chão duro;
e os gestos lentos e benditos de semear;
e a espera da chuva, o medo das secas prolongadas;
pavor de grandes geadas e de pragas, e depois 
os hinos largos e sonoros das colheitas felizes,
que sobem lentamente dos campos imensos. 

Deveria ver os trens que vêm para o Interior,
carregados de imigrantes de todas as raças,
cheios de susto ante um país tão estranho e tão grande.
Deveria gritar aos imigrantes:
"Sede bem-vindos, meus irmãos, sede bem-vindos!"
E dar-lhes a entender que nada lhes faltará,
inclusive a bondade dos nossos corações.
Conhecer todos os Estados do Brasil,
para melhor amar a gente brasileira,
interessar-me mais pelo destino do meu povo.
Ir ver os transatlânticos que trazem
o abraço amigo dos povos da terra.
E subir num deles, e correr o mundo,
para conhecer, e melhor amar todos os meus semelhantes... 

Então, poderia voltar-me para Deus e dizer:
"Senhor, vi a VIDA!" 

Em vez disso, curvei-me sobre o rio da minha vida.
Toda vida, em separado, é triste e insignificante.
Só é grande e maravilhosa a VIDA UNIVERSAL,
formada, harmonicamente, da insignificância de todas as vidas.
Todas as vidas, em conjunto, são maravilhosas! 

Curvei-me sobre o rio da minha vida.
As águas choravam, como é destino das águas de todos os rios.
E porque chovesse nesse dia,
pareceu-me que a enxurrada trazia acintosamente
a lama do mundo para as minhas águas.
As minhas águas estavam sujas, por culpa da enxurrada.
Odieio que não estava em mim. Lamentei o que estava em mim.
E triste e taciturno, voltei-me para Deus, dizendo:
"Senhor, eu vi a Vida!"

 

Publicado no livro Macega Florida, em 1926.

 

 

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