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O Canto Inútil

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Deus me disse: "Canta!" 

Elevei a minha voz no sossego da noite,
e cantei demoradamente, mas como quem cumpre uma ordem.
Não sentia felicidade em cantar, e até estava aborrecido
porque Deus ordenara que cantasse.
Todos os poetas cantam, segundo uma ordem de Deus!
Elevei a minha voz na quietação da noite.
Mas, eu estava cantando no meu quarto fechado,
fechado completamente a toda inspiração exterior.
Eu só sentia o cheiro dos remédios, a tristeza das insônias,
o tédio do ponteiro do relógio, que caminhava, que caminhava
e que nunca marcava o fim de uma vida...
Quem medita na própria tristeza, aumenta a própria infelicidade.
Porque cada vez mais esgravata a sua alma,
voluptuosamente desejando encontrar novas chagas
que desculpem a inegável fraqueza do pranto.
Assim, a minha vida se fazia cada vez mais triste. 

Eu cantei demoradamente no sossego da noite.
Mas, esse canto não poderia subir até Deus.
O quarto era pequeno, estava completamente fechado.
Seria impossível que o meu canto não se abafasse! 

Poucos ouviram o meu canto que deveria subir até Deus:
só os da minha família e algumas pessoas amigas.
E esses mesmos, ao ouvirem o que eu julgava que fosse um canto,
saíram do meu quarto tristes e pensativos... 

Eu pensava que estava cantando, alto, no sossego da noite;
mas, estava, no sossego da noite, chorando baixinho!

 

Publicado no livro Macega Florida, em 1926.

 

 

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