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Tarde de Revelação

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Eu saí uma tarde por uma estrada,
e me achei num alto, donde avistava toda a planície em baixo.
Primeiro os terrenos de cultura, e depois, longe,
casa raras e brancas de sitiantes pobres. 

Isso devia ser na primavera, porque os campos estavam cheios de flores,
e havia pássaros confiados, que chegavam até mim,
e abelhas que vinham enrolar-se nas minhas barbas.
É sinal certo de primavera,
as abelhas enrolarem-se nas barbas dos homens;
na primavera estão embriagadas de perfumes,
e não sabem o que fazem! 

Porque havia uma grande serenidade nas coisas,
apoderou-se de mim um grande bem-estar.
Sentia os pulmões se dilatarem compassadamente,
como se pressentissem que aquele vento leve deveria ser bebido,
naquela hora mágica de cura.

Comecei a olhar em derredor, procurando identificar, mentalmente,
os lugares que avistava e que tinha, à distância,
uma fisionomia diferente.

As casas dos sitiantes pobres,
que cobriam misérias humanas, de mim conhecidas,
brilhavam, ao sol, com um brilho alegre e variado.
Parecia que Deus as coroara de um halo luminoso,
prêmio da santidade perfeita,
como os halos que colocamos nas figuras dos santos
para destacá-los das outras figuras.
As roupas nos varais eram como bandeiras desfraldadas
num campo extenso, em dias de paradas inofensivas.
E eu achei tudo digno de ser visto! 

Procurei o lugar triste, na lagoa quieta, sob a figueira centenária,
lugar predileto das minhas meditações dolorosas.
Todos os lugares de sombra, onde as águas são paradas e fundas,
são tristes, porque lembram angústias e mistérios.
Não se devem olhar muito tempo as coisas quietas e fundas.
Só o movimento e a leveza alegram o espírito e a vida.
Mas, de longe, não vi o lugar da tristeza.
A lagoa resplandecia, parecendo incendiar o céu
com a luz redobrada que lhe devolvia.
E eu achei tudo maravilhoso! 

Em verdade, aquela tarde memorável tinha um ar de revelação.
Nas terras de cultura (havia mutirão) mais de trinta homens
prestavam auxílio ao meu pai.
Conhecia todos: uns eram violeiros tristes, outros, caipiras e pobres,
contumazes choradores de miséria.
Mas, naquele momento de solidariedade humana, cantavam,
ao ritmo sereno das enxadas brilhantes.
E o canto não era triste: modinhas lentas
cortadas, às vezes, por ditos que provocavam gargalhadas.
Canto esplêndido, volumoso, que me pareceu ponderável,
esse canto chegava até mim, perfumado,
por ter esmagado as flores dos campos,
que quiseram escutá-lo.
As vidas humanas são maravilhosas! 

Então, eu disse a mim mesmo:
"Como é inútil, ó alma, a tua tristeza.
Como é inútil provocá-la, descendo à tua miséria,
descendo às dores particulares dos teus semelhantes.
Há uma alegria serena, uma beleza serena,
que é o equilíbrio entre todas as maravilhas que Deus criou
e as misérias que Deus criou para que houvesse maravilhas.
Ama tudo, e compreende a ti mesmo.
Deus dá a todo homem o seu quinhão abundante de dor,
mas, ordena que todo homem busque a beleza e a alegria
que deixou, abundantes e esparsas, por todo este mundo!" 

De repente, como um homem que achasse a certeza,
desci do alto, ágil e leve, como as folhas que o vento sacode.
O sol, que morria, pegou-me, destacou a minha sombra.
Minha sombra distanciou-se crescendo, e sumiu-se no vale.
E eu tive a impressão nítida de que era a minha tristeza
que saía da minha alma, crescia em minha frente, sumia-se no vale...
Meu coração era um doido alegre pulando em meu peito.

 

Publicado no livro Macega Florida, em 1926. 

 

 

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