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Juntos às Águas Claras

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Eu me sinto estranhamente bem
junto às águas claras... 

As moças do meu bairro 
tangem para o bebedouro
as vacas leiteiras. 

E ficam pacientes, esperando,
sob a sombra do bambual e das árvores largas,
enquanto as vacas bebem vagarosas. 

Eu poderia ir falar-lhes, um momento.
Dizer-lhes umas palavras simples e felizes,
que, às vezes, vêm aos meus lábios distraídos.
Falar-lhes das coisas que elas veem todo dia:
dos animais familiares,
da água clara do bebedouro,
da sombra musical dos bambus inquietos.
Falar-lhes com aquelas palavras felizes,
que, às vezes, vêm aos meus lábios distraídos,
que eu não sei de onde vêm, nem eu seu, com certeza,
quem as põe, tão felizes, nos meus lábios!
Elas ficariam deslumbradas e contentes,
porque o seu mundo breve e conhecido
teria um novo sentido amável...
E perguntariam onde fora que aprendera
o sentido tão profundo e, a um tempo, tão claro,
que elas até ali não perceberam. 

E eu, vendo-as contentes e atentas, lhes diria
outras palavras que, às vezes, aparecem
nos meus lábios nervosos:
e essas sei de onde vêm, vêm do meu coração... 

Mas, não irei falar-lhes, um momento.
Se eu lhes falasse, poderia suceder
que uma delas, talvez a mais meiga e mais linda,
começasse a ficar conturbada e apreensiva
com as minhas palavras de revelação sentimental. 

Não sentiria mais prazer em viver nestes campos,
não cantaria, ao conduzir as vacas mansas,
às águas claras deste bebedouro.
Teria desejos imprecisos de um lugar impreciso! 

As águas do bebedouro se renovam.
Mas, as águas do coração, que são águas paradas,
turbadas uma vez, nunca mais ficam limpas!

 

 Publicado no livro Macega Florida, em 1926.

 

 

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