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A Visita Importuna

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Um desarranjo no automóvel custoso, na estrada
que atravessa esse sítio.
E aquela mulher, verdadeiramente admirável,
chegou à cabana solitária e pobre,
onde Deus opera bondosamente
a minha cura corporal e espiritual... 

O seu pai gritava contra os automóveis caros e imprestáveis.
Ela estava esfogueada pelo caminho feito a pé.
Mas, era risonha, irrequieta, ia de um lado para outro,
como se fosse uma grande borboleta buliçosa.
Pediu água,e eu lhe dei num copo rústico
a água mais clara e boa que ela bebeu nesta vida. 

Era mesmo uma grande borboleta loura
essa mulher admirável, que enchia a minha cabana
de um fluido misterioso, que me fazia desejar a cidade.

Viu uns livros sobre a minha mesa. Admirou-se de ver livros...
As mãos buliçosas remexeram os livros, e mostraram aos olhos curiosos
papéis onde eu punha os versos resignados
que a bondade de Deus me fazia escrever.
E gostou dos meus versos. E perguntou o meu nome.
E admirou-se de que vivesse ali solitário
um homem que escrevia versos tão bonitos.
Se eu quisesse, arranjaria um emprego excelente
nos grandes escritórios das firmas
de que seu pai era sempre o sócio principal... 

Depois começou a olhar, sossegada,
o vale para onde as sombras da tarde se recolhiam,
como um rebanho silencioso.
Ficou algum tempo quieta. Pensei que a poesia dos campos
se estivesse insinuando nela,
como se insinua em todos os entes e em todas as coisas da roça.
Os seus olhos brilharam. "Já está pronto o automóvel. Lá vem o automóvel!
Arre! O campo abate e entristece. Só visto a 60 por hora!..." 

E apertou a minha mão, e agradeceu o teto e a água,
a água mais clara e boa que ela bebeu nesta vida.
Se eu quisesse, arranjaria um emprego excelente...
E subiu no automóvel, e desapareceu na estrada,
sem voltar uma só vez a cabeça loura
onde o sol brilhava surpreendido. 

O fluido misterioso, que me fizera desejar a cidade,
ficou, tentação, dentro da minha cabana.
Comecei a pensar na possibilidade de ser feliz
na grande cidade, onde eu falhara uma vez...
Mas, pensei nisso um só momento. 

O vento manso que vinha dos campos
trouxe o perfume irritado dos frutos selvagens.
Lembrei-me que era dia de lua cheia.
E saí, para esperar nas roças vizinhas,
os tatus que vinham roubar no silêncio da noite... 

O rebanho das sombras enchia o aprisco do vale.
A poesia dos campos, a poesia misteriosa dos campos
chovia na terra com as primeiras estrelas.
E eu me surpreendi a chorar, de pura alegria,
por ver que era em mim mais abundante essa chuva divina!

 

Publicado no livro Macega Florida, em 1926. 

 

 

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