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Litania das Minhas Noites

Escrito por Rodrigues de Abreu. Publicado em Rodrigues de Abreu

 

Doçura estranha da minha mágoa!
Tristeza sutil da mocidade!
Meus olhos, sem motivo, rasos de água! 

O fel violento que bebi na vida!
Minha esquisita vida de saudade!
Saudade vaga em lágrimas diluída! 

A doçura do sangue em minha boca!
Minha inquietude cheia de ansiedade!
Longas insônias da minha alma louca! 

Meu desejo feroz de humilhação!
Não ter um movimento de bondade,
apesar de rezar tanta oração! 

Manhãs de cinza, dias de neblina,
noites sem lua, na visualidade
nevoenta de quem toma cocaína! 

Ah! julguei que sentisse assim a vida
porque tivesse a sensibilidade
de uma alma sutil, desconhecida... 

E em vez, isso provém desse mal físico:
a minha enorme sensibilidade
nasce das minhas vibrações de tísico! 

Oh! saudade do tempo em que era doente
e em que desconhecia a enfermidade
e em que chorava à toa, inutilmente... 

Já perdi a beleza de sofrer.
Minha tristeza vem deste mal físico.
Foi-se o bem de ser doente sem saber... 

Antes nunca soubesse que sou tísico!

 

Publicado no livro Quarto de Doente, em 1924.

 

 

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