Imprimir

Ex-morador da Cracolândia fala sobre sua recuperação na Nova Consciência

 

Comunidade Psicossomática Nova ConsciênciaA Comunidade Psicossomática Nova Consciência é uma clínica especializada no tratamento da dependência química (álcool e drogas), em regime de internato, trabalhando o tríplice aspecto: desintoxicação, conscientização e espiritualidade. Localizada em Capivari, SP, atende até 18 pacientes do sexo masculino, entre vagas sociais e particulares.

O jovem José Heitor (nome fictício), natural de São Paulo, SP, com 30 anos, é um desses pacientes. Ele já trabalhou como montador de móveis e ajudante de produção, mas diz não ter uma profissão definida; pelo envolvimento com álcool e drogas, passou por vinte internações clínicas; abandonado pela família, chegou ao fundo do poço, vindo a morar nas ruas de São Paulo, quando conviveu com a Cracolândia.

Apresentamos aqui seu depoimento corajoso.

Como foi sua infância?

Não posso reclamar da minha infância, tive tudo que uma criança precisa, tive boa educação e nunca fiquei sem ganhar presentes. Era minha vó quem cuidava de mim. Meu pai era caminhoneiro, ficava 15 dias viajando, e eu tinha pouco contato com ele. Acho que isso dificultou nossa relação um pouco. Já com a minha mãe era diferente, sempre fui muito apegado a ela. Eu adorava sair com ela, que sempre foi muito presente na minha vida.

Com quantos anos começou a usar drogas?

A primeira droga que experimentei foi o álcool. Eu tinha uns 10 anos e rapidamente conheci as outras. Com 14 anos conheci o crack.

Comunidade Psicossomática Nova Consciência

Como se sentiu morando na rua?

Eu me sentia um lixo... Não acreditava que tinha chegado nesse nível. A única facilidade que via era de não ter que dar mais satisfação a ninguém. Vivia totalmente sem regras, e isso era a única coisa “boa”. As dificuldades eram muitas, sentia muita vontade de morrer, falta da minha família, do conforto de casa. As pessoas olham com nojo para quem mora na rua e isso era muito difícil para mim. Eu não entendia porque tinha trocado a minha vida para viver como um mendigo, eu queria ir embora, mas a vontade de usar não me deixava ir. Quando eu usava, parecia que a minha vida estava ótima.

Como você vê a impotência de seus pais em querer ajudar naquilo que só você pode mudar?

Sentia-me bastante triste, porque meus pais me ajudaram demais. Não entendia por que eu não conseguia parar de usar drogas. Eu demorei a entender que essa decisão deveria partir de mim.

O que você diz do tratamento que está recebendo na Nova Consciência?

O melhor tratamento que eu já tive. As atividades são bastante produtivas, vêm me ajudando bastante. Conto com atendimento psicológico, médico e orientações de técnicos com especialização. A desintoxicação com as saídas para pescaria, prática de esportes e com frequência na academia de musculação com certeza ajuda a melhorar o condicionamento físico. Como existem atividades de manhã, à tarde e à noite, passo o dia ocupado, diminuindo minha ansiedade, não pensando besteira, o que ajuda até na minha autoestima.

Na Nova Consciência a ressocialização é imediata. Como você sente isto?

O lado bom disso é que o interno não fica trancado o dia inteiro, como se tivesse preso. As saídas diárias ajudam bastante nisso – palestras, academia, sala [de N.A.], principalmente nesses grupos anônimos, onde você se relaciona com pessoas que já estão na rua praticando a recuperação. Aqui venho desenvolvendo de novo a confiança nas pessoas.

Comunidade Psicossomática Nova ConsciênciaQual é o seu objetivo de vida, depois da conclusão do tratamento?

De imediato, pretendo arrumar um emprego e retomar o contato com os meus pais. Já tive alguns empregos com carteira assinada. Infelizmente não consegui fazer nenhum curso profissionalizante, embora tenha me matriculado em vários. Pretendo fazer faculdade ano que vem. Penso, também, em arrumar um emprego na área de tratamento de dependência química; acredito que a minha experiência possa ajudar muita gente.

Você acreditava em Deus quando usava drogas?

Sempre ouvi falar de Deus, frequentei várias religiões, mas acreditar de verdade sempre foi a minha dificuldade. Hoje venho desenvolvendo confiança em Deus e me relacionando melhor com meus companheiros de tratamento. Acredito que a abordagem de espiritualidade da Nova Consciência me conscientize de todos os erros que eu cometi no passado, e de que eu posso repará-los.

Se pudesse voltar atrás e fazer diferente, o que você mudaria?

Escutaria mais a minha família. Nesse momento da minha vida, entendi que eles foram as únicas pessoas que tentaram me ajudar. Não foram as “amizades”, nem as dificuldades materiais que me levaram às drogas. Eu era muito tímido, tinha vergonha de conversar com as pessoas. Usei para fazer parte de alguma coisa, mas sempre soube que droga era errado.

O que você diria aos jovens?

A vida é muito boa para perder tempo com drogas, respeitem seus pais, estudem, se divirtam. Sem drogas é muito melhor! E para os pais, hoje, eu aconselharia: falem mais com os seus filhos, queiram saber quais são as dificuldades deles, escutem eles; o diálogo é o melhor remédio contra as drogas.

O que você tem a dizer para a sua família?

Essa pergunta é difícil para mim, já prometi tantas coisas para eles e não cumpri. Talvez eu pediria perdão, mas não vou prometer nada dessa vez. Sinto muita saudade da minha irmã; senti bastante com o afastamento, pois ela sempre estava comigo, nos momentos mais difíceis da minha vida.

Comunidade Psicossomática Nova ConsciênciaQuais as perdas significativas que teve?

Foram muitas, mas a mais sentida foi a perda da confiança da minha família. Não poder entrar em casa dói bastante. O restante eu consigo recuperar. Vivendo na rua, vi várias pessoas morrerem. Vi amigos morrerem por uso de drogas, brigas em boates; mas uma que me marcou foi um rapaz de mais ou menos 10 anos, na Cracolândia: usamos juntos à noite, e ele amanheceu morto.

O que gostaria de dizer aos leitores?

Que as drogas levam ao fundo do poço, mas este não é um caminho sem volta. Todo ser humano tem condições de se recuperar. Aprendi que álcool também é droga, e que a drogadição é uma doença que não tem cura, mas tem recuperação, e é isso que desejo para a minha vida.

 

Fonte: Leitor EME, ano 13, número 32, abril de 2012, página 5, publicação da Editora EME.

 

 

EMPRESAS COM
RESPONSABILIDADE SOCIAL
linha_sep_sfdum-dumemecarrara