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Casa destelhada

Escrito por Rodrigues de Abreu.

 

A Plínio Salgado

A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.

(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)

A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...

(As goteiras estão caindo
lentamente, perversamente 
na terra molhada do meu coração.)

Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras, que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!

Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes ocilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la, 
ouvindo a música das goteiras tristes, 
que caem lentamente, perversamente, 
na terra gelada do meu coração!

 

 

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