LÉO VAZ

Inquieto e fascinante, Léo Vaz foi personagem ímpar, na vida e na literatura. Sua inteligência e sutileza o fizeram ultrapassar a simples narrativa de casos. Com ceticismo e humor, refletia em seus textos sobre as grandes questões humanas. Assim como Lobato, Vaz adotou um estilo nacionalista, não-regionalista. Amigo de Oswald de Andrade, Monteiro Lobato e Sud Mennucci, Léo Vaz era um homem do interior que se projetou na capital, sem deixar que os ares da metrópole eliminassem seu estilo bonachão de “contador de causos”.

Nascido em Capivari a 6 de junho de 1890, formou-se professor pela Escola Normal de Piracicaba, em 1911. Em 1918, mudou-se para a capital, onde iniciou sua carreira jornalística na Revista do Brasil e no jornal O Estado de S. Paulo. Além de exercer as funções de redator e editor na imprensa paulistana, Vaz lecionou francês, foi revisor de textos do Instituto Biológico, bibliotecário da Assembléia Legislativa de São Paulo, chefe técnico da Biblioteca da Faculdade de Direito do Largo S. Francisco e autor do primeiro Almanaque para o Laboratório Fontoura. Mesmo aposentado, aceitou convite de Júlio de Mesquita Neto e, em 1969, assumiu a direção do jornal O Estado de S. Paulo. Léo Vaz faleceu em SP em 1973.

Assim que chegou à capital paulista, Léo Vaz foi apresentado pelo amigo Thales de Andrade a Oswald de Andrade, que acolheu o jovem capivariano. As reuniões literárias de Oswald de Andrade eram freqüentadas por escritores já conhecidos, como Monteiro Lobato, e por alguns jovens em início de carreira: o poeta Guilherme de Almeida, o escritor Menotti del Picchia e o caricaturista Ferrignac.

Em 1920, Léo Vaz lançou seu primeiro livro: “O Professor Jeremias”, publicado pela editora de Monteiro Lobato. Em 1923, saiu a coletânea de contos “Ritinha e outros Casos”; entre 1923 e 1924 integrou a equipe de redatores da Revista da Sociedade de Educação, também editada por Lobato; em 31 de julho de 1929, tomou posse na Academia Paulista de Letras (cadeira 14); em 1951, foi lançado “O Burrico Lúcio” e, em 1957, “Páginas Vadias”.

Em 1935, Léo Vaz foi à Europa pela primeira vez e em grande estilo. A bordo do dirigível Graf Zeppelin, escreveu uma série de reportagens para o jornal O Estado de S. Paulo descrevendo cada detalhe da experiência. Na primeira delas, “O Zeppelin por fora e por dentro”, escrita durante a travessia do Atlântico, registrou sua admiração pelo então moderno meio de transporte: “Ninguém deve considerar-se pessoa viajada de verdade enquanto não viajar de Zeppelin. Navios, estradas de ferro, automóveis, andam mui grudados à superfície; e como a árvore não deixa ver a floresta, assim o viajante marítimo ou terrestre só vê as coisas aos pedaços e nunca tem uma visão de conjunto. O avião, por seu lado, voa mui rápido e mui alto, perdendo assim de uma parte o que lograra da outra. Para ver devagar e do alto as coisas, só de Zeppelin… Uma viagem de Zeppelin é uma série de revelações , de paisagens, de pontos de vista, de concepções novas, que a gente nunca julgara possíveis. Julio Verne, se ressuscitasse e viesse viajar no Zeppelin, teria um mundo de coisas que aprender, e outro tanto que retificar.”

Em 1937, na sua segunda grande viagem, visita Holanda, Alemanha, Áustria, Hungria e Suíça em companhia de Alfredo Mesquita. Apreciam as belezas naturais: os vales alpinos, as grandes montanhas, o lago de Zurich, o Rio Reno. Analisam os tipos humanos, visitam igrejas e museus, enquanto conversam sobre literatura e religião.

Leão Machado, seu colega de Academia Paulista e amigo de muitos anos, ressaltou a bondade dele e o elevou-o à categoria de santo: “… conhecendo Léo Vaz na intimidade, posso assegurar (e nisso certamente estareis comigo), que era um santo. Digo santo, sem pensar na santidade convencional de virtudes cristãs e de misticismo, impossível de conviver com um agnóstico do seu tipo. Agnóstico foi sempre e uma vez escandalizou uma rodinha de conversa na Academia, ao confessar que era um ateu histórico. Não poderia, por isso, ser nunca um santo, desses que estão catalogados no Dicionário Hagiológico. Mas, se se pode medir a santidade de alguém pela sua bondade simples e sem artifícios, pela incapacidade absoluta de fazer mal a quem quer que seja.”

 

“Uma espécie de Machado de Assis sem a gagueira.” Monteiro Lobato

“É um tímido, cioso do seu mundo interior, fugindo à expressão dos sentimentos, entre um olhar de orgulho mal contido e um sorriso velado de cinismo.” Tristão de Athayde

“Sempre tive Léo Vaz na conta de um dos homens mais inteligentes e perspicazes de sua geração. Sempre o admirei como um dos escritores mais elegantes de nosso tempo.” Sérgio Milliet

 

No dia 6 de junho de 2009, o Movimento Capivari Solidário e a Editora Migalhas lançaram a obra Léo Vaz: o cético e sorridente caipira de Capivari, coordenada e redigida por Virginia Bastos de Mattos. O lançamento, acontecido na Casa da Cultura de Capivari, contou com a presenta do poeta Paulo Bomfim, conhecido como “O Príncipe dos Poetas Brasileiros”.

Aos 93 anos, a professora Virginia reuniu dados sobre a vida pessoal e profissional do jornalista e escritor paulista. A obra apresenta o sucesso de seu trabalho literário com “O Professor Jeremias”, lançado por Monteiro Lobato, e “O Burrico Lúcio”, seu livro mais famoso, além de relatar experiências de décadas na redação do jornal O Estado de S. Paulo e suas viagens à Europa.